terça-feira, 8 de março de 2011

Ervas Daninhas

Assim como ervas daninhas, o nosso amor nasceu no inesperado. Naquela pequena fenda entre o asfalto e a calçada. Eu me apaixonei, por suas letras, que não havia cor, nem cheiro. Não sabia sequer pronunciar seu nome. Mas algo em mim queria te ter por perto. Quando finalmente te vi, seu nome não veio, mas veio a certeza de que era você mesmo, o garoto das letras que me levaram a sair de casa, o olhar que me fez esquecer das cicatrizes deixadas e de todo o resto. Estava tão ansiosa, não sabia onde colocar as mãos, se sorria demais, se puxava algum assunto estranho. Estava meio perdida embora completamente ambientada. E foi a partir dali que a nossa plantinha cresceu, e cresceu tanto que não sei. Alastrou-se. Perdi o controle e você também. Hoje olho pra você e espero. Espero voltar no tempo e reconhecer seus olhos, e esquecer as cicatrizes deixadas e de todo resto. Mas você já não esta lá. Estou sozinha esperando reencontrar meu lugar nesta história.

domingo, 11 de julho de 2010

Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto.

Caiu Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de julho de 2010


Até que ponto os destinos podem se enlaçar e decidir toda uma vida? Se hoje a menina olha com paixão ávida ao menino e amanhã desconhece até a si mesma?! Quem garante a menina que tudo não passou de mais um sonho real, igual ao filme? E que o menino apesar do pouco que é tanto, consegue consagrar-se eternamente no enlaço de sua vida. Ele que não é linear e ela que sofre precipitado. Ela que espera respostas e explicações, sem mais perguntas e questionamentos. Espontâneo. Ela que se perde sempre nesses vazios do cotidiano, na resposta que não responde, no olhar que não olha. Ele que se cansa de tanta cobrança e tanta complicação. Eles que juntos formam tudo o que se consolidou e que juntos assistem de perto a ficção da vida. Ela que apesar dos anos continua olhando pela janela, esperando o tal menino, aquele de toda vida. Ele que na verdade é um pedaço de sonho, materializado com vida própria e programado para ser exatamente o que lhe cabe ser. E assim como na dramaturgia é ele quem continua passando e passando por sua janela.

sábado, 5 de junho de 2010

Eu sei que vou sofrer mas fico mesmo assim,
O sol já vai se pôr, o barco vai passar
Por trás desse momento em que você chegar,
E tudo continua em seu lugar, E tudo continua...


Vou me Iludir
Pedro Morais

quinta-feira, 25 de março de 2010

Através do vidro

Entre os vários postes, árvores e lojas em movimento, eu vi você. Em um desses momentos em que tudo corre depressa e por um segundo para bruscamente, em choque, perante o imprevisto. Eu estava no mesmo ônibus de sempre, sentada na janela. Enclausurada e protegida. E você no movimento das ruas, sons e cheiros. Naqueles poucos segundos te olhei por horas e meu olho como imã fez você olhar para mim. Olhamos e desvíamos. Você que já fez parte das minhas histórias, hoje é alguém que vejo ao longe e desvio os olhos. Os motivos já nem me lembro, só restou essa ausência. Esse sentimento oco de olhar e desviar e procurar por algo que ficou preso junto ao dia em que você foi embora. O ônibus acelerou, você, as árvores e os postes continuaram a 60 por hora. Voltei meus olhos para aquele movimento continuo e sorri em paz.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cheiro de loucura

Começou com um simples creme para as mãos, sem o menor sentido de ser. Aquele cheiro silvestre. Foi se esvaindo, tornando ralo e fraco e num piscar sua essência, forte e firme, e mais que isso, impregnada em mim. Lavei a mão tantas vezes, sabão, detergente, shampoo, nada. Que vício, que praga. Minha cabeça sabe que isso é impossível, veja só, frutas vermelhas. Mas meu olfato não mente, você brota nessas coisas ínfimas e me tira a paz. Do mesmo jeito em que surgiu na minha vida, impregnante e forte. Acabei por me habituar a esses novos conceitos, nova forma de viver. Contando os dias, vivendo a espera do que virá, que quando vem já foi. E agora como que cansado, esvaindo, o cheiro foi indo embora devagar. Esse cheiro que durou apenas o tempo do meu delírio. Na minha mão agora apenas o cheiro triste das frutas vermelhas e silvestres. Como uma alucinada, procurei seu cheiro em outros frascos, procurei algum vestígio de você ainda perdido por aqui. Procurei ver sentido em delírios e alucinações. Tentei ver sentido no que me disseram. Tentei entender. Tentei ver sinceridade e continuei me sentindo louca, alucinada. Tentei tantas fórmulas de ver razão no que não há, que escrevo o mesmo texto de novo, de trás pra frente, com o mesmo sentido destoante.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Espelho Turvo

Um banho quente para sentir cada gota, sentir que estou viva. Caem no ralo todas as mágoas e todas as lágrimas. Depois fico tentando me ver no espelho embaçado e sem foco. Essa vontade de enxergar além do que posso, mas não consigo entender como surgiu essa rachadura. Talvez nos antigos beijos de reencontro que não encontro mais. Ou te perdi na minha ânsia de te ter comigo? Sempre achei que esse tipo de sentimento era mútuo. Vai ver foi minha mania de dizer espontâneo demais, se tornou banal? Desacreditou? Aqui continua aquele mesmo sentimento de dependência. Não quero ver nosso amor envelhecer e desbotar, assistir aos nossos beijos escassos, nosso tempo evitado, o espontâneo ignorado, as palavras e mensagens de afeto se espaçando e sumindo de vez. Ver que aquele amor ingênuo e sorridente a qualquer estupidez se tornou exigente demais para sorrir de graça. Não quero e nem vou acreditar que preferimos assim. Continua tudo ambíguo, continua um labirinto. Eu não sei se acredito no que diz ou no que faz. Suas palavras me chamam e suas atitudes se irritam e fogem de mim. Só queria entender.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bilhete de bolso

estou eu aqui esperando você chegar de novo
esses minutos de espera são sempre os mais longos do dia
mesmo as vezes não durando quase nada ou durando a manhã inteira
acaba que a dor é a mesma
e no fim é como se nem tivesse existido
simplesmente porque quando você chega
eu vejo que a espera foi pequena
e que todo o tempo que nos temos também é pequeno demais
para lembrar de qualquer outra coisa
que não seja a vontade de te ter aqui
mais e mais

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Roda Gigante

Daqui do alto vejo você e seu olhar perdido. Como gostaria de ver estampado no seu rosto aquele sorriso antigo, já preso na fotografia. Não sei se um dia conseguirei ser a garota que te preenchera a ponto de colocar luz nos seus olhos e cor no seu sorriso. Minha vontade de te ver feliz é tanta que não hesitaria em te dar impulso para voar o mundo. Sinto-me tão incompetente olhando tudo daqui de cima. Por vezes tão perto do céu, outras tão perto do chão, mas apenas girando, girando, girando. E sua alegria cada vez mais longe de mim.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Efêmero

Se tu achas que não te dou valor
Que não demonstro o meu amor
E que só penso no que é bom para mim
Saiba que também percebo em tua dor
A mesma vontade, o mesmo calor
Querendo o mundo inteiro só pra ti
Mas não viemos do mesmo lugar
Não sabemos onde vamos chegar
Bela é a diferença do amar

Cada gota que me deste
E as homenagens que eu te preste
São todas, juntas, tão pequenas para nós
Pois somos como o oceano
Executando nosso plano
De ser banhado por outros sóis
São tantos interesses em comum
Vamos tentar não esquecer nenhum
Porque por um momento, conseguimos ser um


Paulinho Moska

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Nossa História

Era sexta feira à noite. Temperatura média, mas sentia frio. Expectativas mil e ansiedade extrema. Eu não queria me iludir de novo, só queria que fosse real. Você chegou, seu perfume me envolveu inteira. Vergonha. Você me assustou, sua beleza era acima da média. Fiquei meio sem esperança, sei lá, deve ganhar muitas assim. Esse perfume, esse jeito todo. Desarmei-me inteira, não tinha mais jogo. Perdi sem tentar. Vesti a blusa de frio, tapei o decote. Escolhi o filme de desenho animado. Você aceitou, acho que por educação. Conversei durante o filme. Você pediu silêncio e eu achei graça. Você riu também. Eu pude ser só Camila. Você gostou de mim do jeito mais ingênuo e real. Eu gostei de você de todo coração. Você me pediu para não ir e até hoje somos eternos na nossa eterna história.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pra ser sincera, às vezes, nem eu entendo o motivo dessa dependência toda. Passo metade do dia fazendo alguma espécie de mantra pra você me notar e na outra fico esperando. Nada. Também quem poderia prever? A garota independente sofrendo de dependência?! O mundo ta mesmo virado. Uma viagem pra Arábia Saudita ou Japão? Um tempo pra esquentar ou congelar? Amigos pra entreter ou se perder? Pensando bem, quando o coração se acomoda é difícil surpreender. Pintar a unha de vermelho, cortar o cabelo, dar nova cor a vida, me transformar inteira e no fim, ser a mesma garota de sempre.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Conto de fadas ou realidade inventada?

Toda essa pressão me atinge, mesmo você vendando meus olhos. Não é verão nem inverno, o tempo já não esta tão definido como outrora. Eu também não sou constante, nem passiva ou insensível, tampouco linear. Mesmo sem escutar eu escuto, mesmo sem chorar eu choro. Porque por dentro ninguém vê e ninguém sabe, mas eu sinto. Sei que tem sentido de perto minhas falhas. Sei que nós dois poderíamos ser melhores. Sei das suas vivências e evoluções amorosas. Mas creio que eu só precise de um par. Que me ame muito, me odeie às vezes, mas que na média o amor destaque muito mais. Porque eu não sou perfeita. Eu não sei tudo que você fala sem dizer, faz sem eu ver, mas eu sinto. Fato é que eu sei pouco, quase nada, mas sinto muito. Pode dizer que me ama até a eternidade, mas se eu não sentir será em vão. Pode jurar que me quer eternamente, mas se em algumas horas eu te cansar não é possível acreditar. Bem mais que vivências eu sou emocional. Amar fracionado em poucas horas é fácil. E pior que isso, só amor não basta. Minha mãe me ama eterno e ainda assim não basta. Temos sede de uma paixão. Alguém que ame muito para me suportar sem dor e me amar na dor. E sim, paixão, paixão é que te faz sair de casa. Paixão que desperta beijos, pegadas e aflição de estar só. Paixão que proporciona as melhores e piores sensações. Se isso existe eu não sei. Ainda sim acredito. Ainda sim espero.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Próximo Futuro Próspero

Quando esta sereno demais, você me olha perdido e diz que o passar dos anos me deixara ainda mais bela. Sinto uma felicidade ou algum tipo de ironia interna. No fundo eu sei que daqui a alguns anos muitas coisas incríveis já terão acontecido, muito além da estética. O amor de hoje já terá se transformado em algo muito mais palpável e consistente. Terei algum ou alguns filhos. Uma casa estilo chalé, com cama aconchegante, sala de filmes, livros e um estúdio onde cantarei feliz. Mas tudo isso depois daquele dia de sorte grande, quando iremos juntos tentar a sorte, eu na sena e você na loto, e num ato de coincidência incrível ganharemos juntos e nos tornaremos o casal mais rico e feliz do mundo. Tudo isso sem perder a noção, sem se tornar um desses casais banais onde tudo gira em torno de uma roupa da moda ou do seu novo cachorro de raça. Poderei tirar enfim todas as crianças das ruas, com direito à comida boa e um alfajor diário. Fora às aulas de música para dar cor aos dias. E talvez eu até ganhe algum prêmio muito importante por minhas composições ou lance um livro, mas nada vai se comparar com o elogio que receberei pessoalmente do Chico Buarque, será inesquecível. Teremos uma dessas câmeras modernosas, que registram cores vivas. Almodóvar ficara impressionado com sua sensibilidade, será um amigo muito próximo que nos dará dicas para os nossos filmes. E quando ficar sereno demais, eu vou me lembrar de dias como esse, em que sonhei pequeno.

sábado, 7 de março de 2009

Plural: Eu.

Respiro novos ares enfurnada em outros cantos. Enchendo-me de coisas estranhas para conter toda minha entranhes. Esperar tanto e ter sempre essa ausência qualquer, camuflada em algum tipo de falsa satisfação. Preciso voltar ao meu estado normal de singularidade. Esse plural abandonado, um fardo de solidão. Estou sentindo as nossas saudades.