Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto.
Caiu Fernando Abreu
Loucuras, fotos, versos, distorções, filmes, alegrias, dores, música, violão, tormenta, tristezas, paixões, amor, você. Só você.
domingo, 11 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010

Até que ponto os destinos podem se enlaçar e decidir toda uma vida? Se hoje a menina olha com paixão ávida ao menino e amanhã desconhece até a si mesma?! Quem garante a menina que tudo não passou de mais um sonho real, igual ao filme? E que o menino apesar do pouco que é tanto, consegue consagrar-se eternamente no enlaço de sua vida. Ele que não é linear e ela que sofre precipitado. Ela que espera respostas e explicações, sem mais perguntas e questionamentos. Espontâneo. Ela que se perde sempre nesses vazios do cotidiano, na resposta que não responde, no olhar que não olha. Ele que se cansa de tanta cobrança e tanta complicação. Eles que juntos formam tudo o que se consolidou e que juntos assistem de perto a ficção da vida. Ela que apesar dos anos continua olhando pela janela, esperando o tal menino, aquele de toda vida. Ele que na verdade é um pedaço de sonho, materializado com vida própria e programado para ser exatamente o que lhe cabe ser. E assim como na dramaturgia é ele quem continua passando e passando por sua janela.
sábado, 5 de junho de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
Através do vidro
Entre os vários postes, árvores e lojas em movimento, eu vi você. Em um desses momentos em que tudo corre depressa e por um segundo para bruscamente, em choque, perante o imprevisto. Eu estava no mesmo ônibus de sempre, sentada na janela. Enclausurada e protegida. E você no movimento das ruas, sons e cheiros. Naqueles poucos segundos te olhei por horas e meu olho como imã fez você olhar para mim. Olhamos e desvíamos. Você que já fez parte das minhas histórias, hoje é alguém que vejo ao longe e desvio os olhos. Os motivos já nem me lembro, só restou essa ausência. Esse sentimento oco de olhar e desviar e procurar por algo que ficou preso junto ao dia em que você foi embora. O ônibus acelerou, você, as árvores e os postes continuaram a 60 por hora. Voltei meus olhos para aquele movimento continuo e sorri em paz.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Cheiro de loucura
Começou com um simples creme para as mãos, sem o menor sentido de ser. Aquele cheiro silvestre. Foi se esvaindo, tornando ralo e fraco e num piscar sua essência, forte e firme, e mais que isso, impregnada em mim. Lavei a mão tantas vezes, sabão, detergente, shampoo, nada. Que vício, que praga. Minha cabeça sabe que isso é impossível, veja só, frutas vermelhas. Mas meu olfato não mente, você brota nessas coisas ínfimas e me tira a paz. Do mesmo jeito em que surgiu na minha vida, impregnante e forte. Acabei por me habituar a esses novos conceitos, nova forma de viver. Contando os dias, vivendo a espera do que virá, que quando vem já foi. E agora como que cansado, esvaindo, o cheiro foi indo embora devagar. Esse cheiro que durou apenas o tempo do meu delírio. Na minha mão agora apenas o cheiro triste das frutas vermelhas e silvestres. Como uma alucinada, procurei seu cheiro em outros frascos, procurei algum vestígio de você ainda perdido por aqui. Procurei ver sentido em delírios e alucinações. Tentei ver sentido no que me disseram. Tentei entender. Tentei ver sinceridade e continuei me sentindo louca, alucinada. Tentei tantas fórmulas de ver razão no que não há, que escrevo o mesmo texto de novo, de trás pra frente, com o mesmo sentido destoante.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Espelho Turvo
Um banho quente para sentir cada gota, sentir que estou viva. Caem no ralo todas as mágoas e todas as lágrimas. Depois fico tentando me ver no espelho embaçado e sem foco. Essa vontade de enxergar além do que posso, mas não consigo entender como surgiu essa rachadura. Talvez nos antigos beijos de reencontro que não encontro mais. Ou te perdi na minha ânsia de te ter comigo? Sempre achei que esse tipo de sentimento era mútuo. Vai ver foi minha mania de dizer espontâneo demais, se tornou banal? Desacreditou? Aqui continua aquele mesmo sentimento de dependência. Não quero ver nosso amor envelhecer e desbotar, assistir aos nossos beijos escassos, nosso tempo evitado, o espontâneo ignorado, as palavras e mensagens de afeto se espaçando e sumindo de vez. Ver que aquele amor ingênuo e sorridente a qualquer estupidez se tornou exigente demais para sorrir de graça. Não quero e nem vou acreditar que preferimos assim. Continua tudo ambíguo, continua um labirinto. Eu não sei se acredito no que diz ou no que faz. Suas palavras me chamam e suas atitudes se irritam e fogem de mim. Só queria entender.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Bilhete de bolso
estou eu aqui esperando você chegar de novo
esses minutos de espera são sempre os mais longos do dia
mesmo as vezes não durando quase nada ou durando a manhã inteira
acaba que a dor é a mesma
e no fim é como se nem tivesse existido
simplesmente porque quando você chega
eu vejo que a espera foi pequena
e que todo o tempo que nos temos também é pequeno demais
para lembrar de qualquer outra coisa
que não seja a vontade de te ter aqui
mais e mais
esses minutos de espera são sempre os mais longos do dia
mesmo as vezes não durando quase nada ou durando a manhã inteira
acaba que a dor é a mesma
e no fim é como se nem tivesse existido
simplesmente porque quando você chega
eu vejo que a espera foi pequena
e que todo o tempo que nos temos também é pequeno demais
para lembrar de qualquer outra coisa
que não seja a vontade de te ter aqui
mais e mais